Sobre Escrever Bem – parte I

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Quando me perguntam sobre como escrever bem, penso por um instante, e encontro uma resposta não conclusiva, mas verdadeira: Para escrever bem é preciso ler bem.

Quando meus interlocutores ouvem esta simples resposta acham que estou desviando o foco, afinal algo que para a grande maioria das pessoas é penoso, não pode se resumir em apenas uma simples resposta.

Claro que há outras preocupações e esforços necessários a quem deseja fazer bom uso da escrita. Porém para escrever bem não há receita pronta; há, na verdade, caminhos que nos fazem chegar a este objetivo.

É preciso ler (bem) para ter uma boa escrita, como já afirmei. A leitura nos proporciona muito mais que uma escrita sem erros ortográficos, mas nos cobre de novas palavras, novas idéias e capacidade de criar textos diversificados. E quando nos aventuramos em produzir nossos próprios textos, estamos exercitando nossa capacidade de criação, pondo à prova nosso vocabulário e nosso conhecimento geral.

Boa coisa é entender que a escrita e a fala são tarefas diferentes. Que ambas utilizam a linguagem verbal como meio de expressão, porém em aplicações diferentes. Partindo da visão de que a Língua é um organismo vivo e não estático, poderemos perceber ainda mais essa diferença entre língua falada e escrita.

Observe este poema datado de 1558, do trovador português Afonso Mendes de Besteiros:

Don Foão, que eu sei que á preço de livão,
vedes que fez en guerra
daquesto sou certão:
sol que viu os genetes, come boi que fer tavão,
sacudiu-se e revolveu-se, al-
çou rab’e foi sa vía a Portugal
.

Don Foão, que eu sei que á preço de ligeiro,
vedes que fez ena guerra – daquesto sou verdadeiro:
sol que viu os genetes, come bezerro tenreiro,
sacudiu-se e revolveu-se, al-
çou rab’e foi sa vía a Portugal.

Don Foão, que eu sei que á prez de liveldade,
vedes que fez ena guerra (sabede-o por verdade):
sol que viu os genetes, come can que sal de grade,
sacudiu-se e revolveu-se, al-
çou rab’e foi sa vía a Portugal.

Glossário

Don Foão: Don fulano; dessa forma, o trovador não nomeia a pessoa satirizada: sabe-se que se trata de um fidalgo.
á preço de livão: tem fama de
vedes que fez en guerra: vede o que fez durante a guerra
daquesto sou certão: disto estou certo
sol que viu os genetes: logo que viu os cavaleiros (mouros)
come boi que fer tavão: como boi aferroado por um moscão (tavão, moscão, moscardo.)
alçou rab’e foi sa vía a Portugal: levantou o rabo e fugiu para Portugal
á preço de ligeiro: tem fama de leviano
daquesto sou verdadeiro: = daquesto soo certão: disto estou certo
come bezerro tenreiro: como um bezerro novo
á prez de liveldade: tem fama de medroso; leviano (liveldade: ligeireza ao fugir)
come can que sal de grade: como cão que sai da prisão, da corrente.

*Notar a brilhante rima utilizada pelo poeta no refrão: ele faz a divisão silábica de alçou, a sílaba al- encerra um verso, a sílaba -çou inicia o outro; dessa forma, o poeta faz a rima do refrão em al/Portugal.

Apenas conseguimos entender a mensagem do poema quando apoiados num glossário, ainda que o texto seja escrito em português. Mas por que há expressões tão diferentes? Grafia que a olhos desavisados parecerão erros ortográficos? Simples: a língua se transforma!

Os textos contemporâneos, certamente se tornarão estranhos, diferentes a quem lê-los daqui a cem, duzentos anos. E se pudéssemos ter o prazer de ouvir uma conversa datada da mesma época, a qual foi escrito a trova acima, teríamos ainda maiores problemas para entendê-la. Já que há maior dinamismo nas transformações na língua falada. A cada dia novas palavras nascem. Novas expressões se tornam comum, adjetivam o ambiente que nos rodeia.

A divisão das águas;

Ao observarmos a forma que as pessoas conversam, perceberemos que as construções de frases, a forma que organizam as palavras; são diferentes da forma que as idéias são expressas num texto. Percebemos que o Brasil com sua vasta extensão territorial, possui diversas variações lingüísticas. Há tamanha variação que conseguimos identificar a região natal de uma pessoa através de seu modo de falar. Suas palavras o denunciam como sendo do nordeste ou do sul do país, por exemplo. Tais variações ocorrem por que a Língua é um organismo vivo. Frisando que aqui discorremos sobre a “língua falada”.

Toda essa diversidade cultural é um problema a quem se dispõem a escrever, estes têm de seguir um único conceito gramatical. Enquanto falamos conforme nossa região, nossa comunidade, fazendo uso das palavras e construções de frases que nos convém; diante da língua escrita, isso não é válido. E quem tem pouco contato com bons textos, certamente se sentirá inseguro para produzir um. Então se atente a isso: quando lemos, temos contato com a língua escrita, a mesma que faremos uso para escrever. Embora a afirmação pareça óbvia e simplória, muitos não percebem isso. Lembre-se, ainda, que quase todos os analfabetos também sabem falar, logo a comunicação do dia-a-dia não serve de espelho quando queremos escrever algo.

Se você não tem hábito de ler, de observar as frases, as palavras, então terá de começar a caminhada. Perceber que está diante de uma visão nova, onde a escrita segue separadamente da fala. Pois quem utilizar-se da fala sempre buscará o caminho mais curto para exprimir sua mensagem. Quem utilizar-se da escrita precisará de cuidado, e o caminho mais curto nem sempre será a melhor opção. Há diversos caminhos a serem escolhidos no momento de se escrever um texto.

Vejo Vocês… na parte II sobre Escrever Bem…

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Patrick Wilson tem 33 anos, é Professor de Ciências Tecnológicas na PUC /SP.
Fascinado por tecnologia, futebol e tudo o que acontece no dia-a-dia e que valha ser compartilhado na Web.

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