Entrevista com Nuno Bittencourt – Empreendedor da Terceira Idade


“Nuno Bittencourt, designer gráfico.”

Nuno é um sobrevivente da especulação imobiliária do bairro de Santo Amaro onde ele mora. Sua casa surge milagrosa e teimosamente entre prédios de 20 andares. Ele, diferentemente da maioria das fortalezas que o circundam e que suam neurose por todo lado, me recebe de braços abertos e abrindo com uma chave simples a porta da própria casa. Nuno e design gráfico. Com 55 anos considera que está na hora de encarar a segunda carreira. Virará doutor em Comunicação daqui a três anos. O estrado das boas aulas é como um palco de atores onde o professor não pára de retocar os textos pertinentes até lograr a perfeição. Mexe um pouco por aqui, mexe por ali… até deixá-los perfeitos, afirma. Aquilo feito com amor você retoca… aquilo que você não faz com amor você manda, não é?

Quantos anos você tem?
Nasci em 1950, portanto sou um baby boomer. O mundo estava explodindo de bebês.

E a sua formação?
De adolescente tive um problema, que foi a minha vocação, indefinida. Entrei em arquitetura porque remete à história, humanas, exatas, assim como para atividades mais artísticas. Fiz arquitetura mas nunca exerci. Estudei na FAU da USP.

Desde o ponto de vista profissional…
Comecei em escritórios de publicidade. Meu primeiro trabalho foi na Cultura Artística, velha promotora de espetáculos de São Paulo. Música clássica. Depois trabalhei na Bienal de São Paulo. Sempre tive um interesse importante em design gráfico. Nessa época estavam começando os computadores. Decidi comprar um Macintosh e vi a maravilha de ter um estudo dentro de uma máquina. Tenho um perfil voltado para a produção, mas fraco na parte comercial.

E agora, as aulas.
Eu desde garoto via que tinha facilidade para dar aula. Dava aula particular para amigos meus, para colegas da minha irmã, matemática, física. Acho legal a pessoa ser capaz de resgatar os diversos talentos que tem. Cada pessoa tem um foco na sua carreira profissional, mas cada um tem muitas inclinações, muitos talentos, e que você trata no desenvolvimento da sua vida profissional ou você deixa de maneira mais embrionária para outra altura do campeonato.

Outra altura do campeonato?
Se você é mandado embora por exemplo, a capacidade de ter jogo de cintura ou versatilidade para suas diversas inclinações é muito importante conforme vai avançando na sua idade.

Como você descobriu que tinha outros talentos?
O fato de ter filhos são inspirações para você desobstruir esses canais que tem dentro de você. Tem filho que gosta de um aspecto, outro de outro, você, em contato com eles vai vendo que não é um monólito e sim um painel com muitas facetas.

Nem todo mundo descobre isto.
A vida é um desafio de duas caras. Uma é se aprofundar e aperfeiçoar no que você está fazendo hoje. A outra cara é ter uma visão mais horizontal, mais panorâmica do mundo, assim como da vida, de si mesmo e de suas capacidades.

Como foi em você?
Eu sou um exemplo disso. Tive a ocasião de experimentar a aula e fui bem sucedido. Terminada uma aula me sinto três palmos acima do chão. Me sinto preenchido, me sinto bem. Diante da dificuldade comercial eu decidi tomar um gesto categórico. Eu venho pensando dar aula há uns três anos e meio, e agora veio um estalo no sentido de resolver chegar perto da universidade, abrir os sites, ver quais são os prazos, quais são as condições, que devo preparar, a qualificação que se deve desenvolver para concorrer para o mestrado…

E como o leva?
Estou me sentindo muito bem. Estou me sentindo ativo, interessado, estou sentindo que estou abrindo caixas que estavam guardadas dentro de mim.

Caixas guardadas?
Começaram se abrir diante das dificuldades comerciais dentro da minha opção 12 anos atrás.

Você acha que tem muita gente nesta situação?
Sim, e as encorajo as pessoas a seguir em frente. Ficar parado junta limo.

O limo é o quê?
Limo, musgo. Você já levantou pedra do jardim? Tem limo, musgo, minhoca, tem tatu bola, elementos que representam coisas simpáticas mas que não trazem dinamismo, trazem uma vida subterrânea, na sombra. Outros podem preferir uma vida à luz do sol.

Me explique o que é isso de vida à luz do sol.
Uma vida na sombra tem um charme muito grande na minha opinião. Pode ser uma vida de reflexão, de introversão, de aprofundamento da sua relação com si mesmo. Todos temos uma fase extrovertida e introvertida. Acho que outros podem preferir equilibrar esse lado de uma vida mais íntima e individual com uma vida de troca, de aprendizado, de novidades, de extroversão. Ao meu ver, a procura do equilíbrio de um e outro é o ideal. Eu acho que, pender muito para a ponta da extroversão e o dinamismo pode deixar um aprendizado mais íntimo e profundo dos significados da vida. Mas se você se dedicar ao lado introvertido, individual, perde o charme a luz e o vento e as cores do relacionamento.

E os amigos, o que acham?
Tenho muitos amigos. Estou numa fase muito interessante de resgate. Tenho amigos recentes que eu estou construindo e eles estão construindo comigo, como se fôssemos colegas de escola.

Voltemos à sala de aula, seu novo e grande desafio.
A configuração de uma sala de aula é parecida à configuração de uma sala de teatro, de culto inclusive. A profissão de sacerdote, o ator e o professor são profissões irmãs, primas. Eu me lembro das aulas chatas, em que o professor está de costas e escreve no quadro negro. As aulas mais legais eram dadas por professores que conheciam o texto, pertinentes, e passavam o texto com chama, com paixão. Eles sabiam ritmar o discurso e os conteúdos com brincadeiras. Eles tinham uma energia corporal, carisma, que o bom ator tem. Eles estabeleciam uma troca de energia no palco ou altar muito forte, muito intuitiva.

Parece como que você já tinha essa vocação muito clara desde jovem.
Eu comecei a perceber nas minhas aulas de adolescência, mas não percebi. Acredito que o jovem não é capaz, pelo menos eu não fui capaz de discernir o que é o talento e o que é o interesse. Tinha interesse em jogar futebol, mas eu era horroroso. Acredito que na medida que você ganha experiência você vai saber distinguir o que gostaria de ter feito e aquilo que tem feito. Tive aquela percepção de garoto. Mas não tive a nitidez de perceber.

Teve já oportunidades de pôr em prática o seu talento?
Sim. Tenho um amigo no Mackenzie que estava sobrecarregado e estressado sem capacidade de cumprir os prazos do doutorado e as aulas. Ele me convidou e me propôs um semestre de aulas no seu lugar. Aulas na faculdade de Comunicação. Não só gostei como que a turma gostou. Senti que havia empatia, um fluxo de energia produtivo e agradável.

Ele sabia já do seu interesse?

Ele sabia que eu estava namorando a idéia de dar aula. Mas que não estava firmemente resolvido. Mas a oportunidade que surgiu me fez ver que eu precisava desenvolver isso.

Você acha que esta situação pode acontecer com todo o mundo que esteja procurando uma segunda carreira?

Temos oportunidades. Devemos estar atentos e abertos para essas oportunidades.

O preconceito é que as oportunidades vêm na juventude…

Vêm com todas as idades.

Seus passos mais imediatos
Vou fazer um mestrado que vai me qualificar para disputar uma vaga de professor. O mestrado é em jornalismo. Porque jornalismo tem uma grande conexão com design gráfico. O meu pai me colocou em contato com uma revista que foi uma revolução em termos de conteúdo como design no final dos anos 50, começo dos anos 60. Ficava fascinado. A revista se chamava Senhor. E o design tem essa conexão com o jornalismo, o escrito e o de internet.

Tem tempo de conjugar o trabalho e a preparação para o mestrado?
Tenho quatro padrões de dia. Levanto cedo. Pego o meu mestrado, fico na produção na leitura, tomando notas, escaneando artigos, vou para internet, procuro outras informações. Outros dias me dedico ao meu trabalho rentável. Tenho que fazer visitas a clientes. Além do mais procuro manter uma atividade física regular. Tenho tempo sim.

Sente que está deixando uma parte de você para trás?
O trabalho de design gráfico foi muito alentador. Mas não encontrei a fórmula comercial.

Hoje está vivendo uma segunda adolescência, pelo que estou vendo…
Eu estou me sentindo muito bem. Abrindo uma nova perspectiva, um novo desafio. Sinto que os passos que estou dando parecem ser bem sucedidos. O que faço no ato, no presente, me da satisfação. Quando sinto que eu terminei um texto o leio com satisfação, dou aqueles retoques. Quando você gosta, retoca, quando você não gosta, você manda. Não é? Estou fazendo isso com amor. Eu tenho uma crença. Quando você faz uma coisa com amor, você impregna isso com energia, uma bola de energia boa, e as pessoas sentem. É um fluxo positivo, uma espiral que sobe. Se você quiser uma imagem para caracterizar é uma espiral ascendente.

Soa muito bem.
Sinto inclusive até que a minha libido está expandida.

Caramba…
Sim, é verdade. Ha, ha, ha, ha…

Eu volto daqui a três anos para falar com o doutor.
Combinado desde já.

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Patrick Wilson
Patrick Wilson tem 33 anos, é Professor de Ciências Tecnológicas na PUC /SP. Fascinado por tecnologia, futebol e tudo o que acontece no dia-a-dia e que valha ser compartilhado na Web.

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