Sobre Escrever Bem – parte I
Quando me perguntam sobre como escrever bem, penso por um instante, e encontro uma resposta não conclusiva, mas verdadeira: Para escrever bem é preciso ler bem.
Quando meus interlocutores ouvem esta simples resposta acham que estou desviando o foco, afinal algo que para a grande maioria das pessoas é penoso, não pode se resumir em apenas uma simples resposta.
Claro que há outras preocupações e esforços necessários a quem deseja fazer bom uso da escrita. Porém para escrever bem não há receita pronta; há, na verdade, caminhos que nos fazem chegar a este objetivo.
É preciso ler (bem) para ter uma boa escrita, como já afirmei. A leitura nos proporciona muito mais que uma escrita sem erros ortográficos, mas nos cobre de novas palavras, novas idéias e capacidade de criar textos diversificados. E quando nos aventuramos em produzir nossos próprios textos, estamos exercitando nossa capacidade de criação, pondo à prova nosso vocabulário e nosso conhecimento geral.
Boa coisa é entender que a escrita e a fala são tarefas diferentes. Que ambas utilizam a linguagem verbal como meio de expressão, porém em aplicações diferentes. Partindo da visão de que a Língua é um organismo vivo e não estático, poderemos perceber ainda mais essa diferença entre língua falada e escrita.
Observe este poema datado de 1558, do trovador português Afonso Mendes de Besteiros:
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*Notar a brilhante rima utilizada pelo poeta no refrão: ele faz a divisão silábica de alçou, a sílaba al- encerra um verso, a sílaba -çou inicia o outro; dessa forma, o poeta faz a rima do refrão em al/Portugal.
Apenas conseguimos entender a mensagem do poema quando apoiados num glossário, ainda que o texto seja escrito em português. Mas por que há expressões tão diferentes? Grafia que a olhos desavisados parecerão erros ortográficos? Simples: a língua se transforma!
Os textos contemporâneos, certamente se tornarão estranhos, diferentes a quem lê-los daqui a cem, duzentos anos. E se pudéssemos ter o prazer de ouvir uma conversa datada da mesma época, a qual foi escrito a trova acima, teríamos ainda maiores problemas para entendê-la. Já que há maior dinamismo nas transformações na língua falada. A cada dia novas palavras nascem. Novas expressões se tornam comum, adjetivam o ambiente que nos rodeia.
A divisão das águas;
Ao observarmos a forma que as pessoas conversam, perceberemos que as construções de frases, a forma que organizam as palavras; são diferentes da forma que as idéias são expressas num texto. Percebemos que o Brasil com sua vasta extensão territorial, possui diversas variações lingüísticas. Há tamanha variação que conseguimos identificar a região natal de uma pessoa através de seu modo de falar. Suas palavras o denunciam como sendo do nordeste ou do sul do país, por exemplo. Tais variações ocorrem por que a Língua é um organismo vivo. Frisando que aqui discorremos sobre a “língua falada”.
Toda essa diversidade cultural é um problema a quem se dispõem a escrever, estes têm de seguir um único conceito gramatical. Enquanto falamos conforme nossa região, nossa comunidade, fazendo uso das palavras e construções de frases que nos convém; diante da língua escrita, isso não é válido. E quem tem pouco contato com bons textos, certamente se sentirá inseguro para produzir um. Então se atente a isso: quando lemos, temos contato com a língua escrita, a mesma que faremos uso para escrever. Embora a afirmação pareça óbvia e simplória, muitos não percebem isso. Lembre-se, ainda, que quase todos os analfabetos também sabem falar, logo a comunicação do dia-a-dia não serve de espelho quando queremos escrever algo.
Se você não tem hábito de ler, de observar as frases, as palavras, então terá de começar a caminhada. Perceber que está diante de uma visão nova, onde a escrita segue separadamente da fala. Pois quem utilizar-se da fala sempre buscará o caminho mais curto para exprimir sua mensagem. Quem utilizar-se da escrita precisará de cuidado, e o caminho mais curto nem sempre será a melhor opção. Há diversos caminhos a serem escolhidos no momento de se escrever um texto.
Vejo Vocês… na parte II sobre Escrever Bem…







