A vida Feliz de Um Coveiro


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Seu Mané coveiro, um homem supersticioso, só entra para trabalhar com o pé direito e depois de fazer o sinal da cruz por três vezes

Manoel Vitor Filho, 58 anos, fã de Luiz Gonzaga – o rei do baião – e amante do autêntico forró pé de serra, apesar de trabalhar no cemitério, um lugar que evoca muitas tristezas, está sempre bem humorado e irradia alegria.

Seu Mané, como é carinhosamente conhecido, nasceu em Mandaú Mirim, cidadezinha cravada no sertão de Alagoas. De família de poucas posses, ele freqüentou apenas dois anos da escola, que abandonou porque tinha que ajudar seus pais na vida dura no nordeste. Ainda adolescente, veio tentar a sorte no estado de São Paulo, onde, durante muitos anos, trabalhou duro para sobreviver nas roças de nossa região. Pai de oito filhos, mudou-se para Paraguaçu procurando proporcionar um conforto melhor para a família. Ingressou na Prefeitura em março de 1998: “fiquei com o cabelo arrepiado quando fui escalado para trabalhar no cemitério Municipal, só aceitei porque tava mesmo precisado do serviço”, confidenciou o seu Mané.

A primeira cova que ele abriu rendeu-lhe algumas noites de insônia e muito medo, mas o mais assustador foi quando o seu Acácio, hoje coveiro aposentado do cemitério Municipal, o chamou para auxiliar em uma exumação de ossada, que iria ser trasladada para outra cidade a pedido dos parentes.  Quando abriu o jazigo e viu os restos mortais, ele se sentiu mal com a cena, virou o rosto para não ficar olhando, mas os seus olhos traiçoeiramente pararam justamente em uma placa escrita com esta frase: “ontem eu era o que tu és… amanhã tu serás o que sou”. Lendo essas palavras e conferindo as ossadas, foi acometido de uma crise de medo tão grande que resultou num horrível desajuste intestinal e, por pouco, não fez besteira na farda. Durante alguns dias, pensou seriamente em abandonar a nova profissão, mas orientado e aconselhado pelo seu mestre Acácio, foi superando o medo e controlando suas emoções.

Ele se lembra de uma passagem marcante, quando ainda era um neófito na profissão: ele teve que ficar sozinho no cemitério até a noite cair, porque havia um sepultamento programado para o horário noturno, de um morto cujo féretro estava vindo de outra cidade. Quando o enterro terminou, já passava das 22 horas, as pessoas já tinham deixado o cemitério e ele, sozinho, caminhou por entre as escuras ruelas iluminadas por algumas velas trêmulas e foi pegar sua bicicleta quando, de repente, ouviu uma voz que vinha de trás de um jazigo “não me deixe preso aqui Mané!”. Naquele instante ele ficou estático, as pernas bambearam e os seus poucos cabelos se ouriçaram; um calafrio percorreu toda a sua espinha dorsal, até que a voz se identificou: “Sou eu, seu Mané, o Tico!” (O Tico era um morador de rua que às vezes tirava uma soneca no cemitério e, naquele dia, perdera a hora ficando no ali até o anoitecer).

Hoje, o seu Mané disse que aprendeu lidar com as suas emoções; já fez o sepultamento do seu próprio irmão e não derramou uma lágrima, apenas sentiu uma tristeza imensa pela separação. Manoel Vitor Filho tem histórias que dá para virar um verdadeiro best-seller. Como testemunha ocular, Mané já viu de tudo que se possa imaginar dentro do Campo Santo: já flagrou desde de despacho de macumba até casal em fase de acasalamento e em plena reprodução da espécie.

Apesar dos imprevistos geralmente ocorrerem em momento de muita tristeza e de dor, as gafes, após um tempo, se tornam engraçadas e viram histórias…  Diz Mané que nessas ocasiões o que não falta é um bêbado  misturado ao meio do povo fazendo suas presepadas. Ele conta que, certa vez, a pedido da família, abriu o caixão para as últimas despedidas à beira da sepultura, mas tinha um bebum que não parava de perturbar e, ao começar a tampar o caixão, o pé de cana gritou “eu ainda não despedi de meu grande amigo”. Quando foi abaixar para olhar seu amigo, o bêbado se desequilibrou e capotou dentro da cova, arrancando risos até da chorosa viúva que, por um momento, deu uma pausa no pranto.

Outra passagem de bêbado que ele conta, morrendo de rir, foi num sepultamento de uma anciã, o cana-brava agarrou o pobre do seu Mané e, dando lhe uma gravata, gritava: “Você não vai levar a minha mãe seu infeliz”. Seu Mane precisou da ajuda de várias pessoas para se livrar das mãos do cana-brava.

Entre umas e outras, Mané também conta que já presenciou uma senhorinha chorando uma tarde toda em um túmulo errado; ele diz que estranhou porque conhecia toda a família do “inquilino” daquele jazigo e, curioso, perguntou se ela era parente do falecido e ela disse que  sim.  Aí o Mané falou: “Eu acho que senhora está chorando em lugar errado”, e ela teimava que tinha acompanhado o sepultamento e era aquele o lugar que estava seu falecido irmão. Neste momento, Mané mostrou onde estava enterrado o ente querido, que ficava cinco túmulos depois daquele”.

Já se vão praticamente onze anos que Mané trabalha no Cemitério da Paz, mas o que ele reclama é da dificuldade em seguir o que Jesus pediu: “Ide e fazei discípulos”. Ele afirma que é difícil encontrar pretendentes para aprendiz de coveiro: “às vezes chegam pessoas com boa vontade e boas intenções para trabalhar, mas, geralmente, o candidato a Zé do Caixão é acostumado com serviços braçais e, quando chega a hora do vamos ver, a coisa muda de figura, e é ai que a porca torce o rabo e o gajo bate em retirada”.

Certa feita, a administração mandou um candidato que parecia ser um campeão de musculação, o rapaz era muito forte. Neste dia, chegou uma ordem judicial de exumação para fazer uma nova perícia num cadáver, que já estava começando a entrar em estado avançado de decomposição. Diz o seu Mané: “Quando retirei a tampa do caixão, só escutei o baque; era o nosso Mike Tyson que tinha ido a nocaute, desmaiou, e, quando voltou a si, a primeira coisa que fez foi pedir a conta”.

PING-PONG COM O SEU MANÉ

Você tem medo da morte?

“De jeito nenhum. A morte é a maior prova de que Deus é justo, ninguém escapa, chegou a hora, vai mesmo. Aqui  eu enterro rico, pobre, bonito, feio, gordo, magro, branco, negro, religioso, ateu, pessoas de todos os jeitos; se o escolhido for chamado, não adianta fazer birra e nem querer pisar no freio , que vai mesmo”.

Você ainda tem medo dos mortos?

“Não, hoje eu morro de medo dos vivos, os mortos já estão em seu descanso eterno e não fazem mal a ninguém”.

O que você tira de lição de sua profissão de coveiro?

“Nesta profissão, eu aprendi que somos todos iguais, ninguém é melhor do que ninguém, quando se olha uma ossada não tem diferença nenhuma de um ou do outro, se eu embaralhar os ossos você não saberá quem é quem . Nessa fase, as diferenças são todas zeradas e fica a realidade de que, perante Deus, somos todos iguais, ninguém é superior a ninguém”.

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Patrick Wilson
Patrick Wilson tem 33 anos, é Professor de Ciências Tecnológicas na PUC /SP. Fascinado por tecnologia, futebol e tudo o que acontece no dia-a-dia e que valha ser compartilhado na Web.

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