A DEFICIÊNCIA FÍSICA NO CONTEXTO DA EDUCAÇÃO INCLUSIVA: MATERIAIS E MÉTODOS

0
1.475 visitas

MATERIAIS E MÉTODOS

3.1 Caracterização do estudo

O presente estudo caracteriza-se por ser do tipo exploratório, sendo estes investigações de pesquisa empírica cujo objetivo é aumentar a familiaridade do pesquisador com um ambiente, fato ou fenômeno (LAKATOS e MARCONI, 2001) ou, ainda, com o problema (GIL, 1991), e ainda modificar e clarificar conceitos (LAKATOS e MARCONI, 2001) e aprimorar idéias (GIL, 1991).

Para responder ao problema de pesquisa “Como está sendo considerado o papel do corpo na inclusão de alunos com deficiência física em séries iniciais da rede municipal de Caxias do Sul, segundo as concepções dos professores e as condições de acessibilidade apreendidas?”, realizamos uma Pesquisa de Campo, a qual, segundo Lakatos e Marconi (2001), é utilizada com o objetivo de conseguir informações e/ou conhecimentos acerca de um problema, para o qual se procura uma resposta, ou de uma hipótese, que se queira comprovar, ou ainda, descobrir novos fenômenos e a relação entre eles. Acreditamos, então, que a pesquisa realizada teve um caráter de aproximação entre o referencial teórico estudado e a realidade investigada.

Utilizamos a abordagem quantiqualitativa na análise dos dados, como será descrito no próximo capítulo, já que a apresentação numérica, em alguns momentos, serviu como complementação (e também para facilitar a visualização) da análise qualitativa.

Segundo Chizzotti (1998), as pesquisas quantitativas prevêem a mensuração de variáveis preestabelecidas, procurando verificar e explicar sua influência sobre outras variáveis e, nelas, o pesquisador descreve, explica e prediz. As pesquisas qualitativas, entretanto, fundamentam-se em dados coligidos nas interações interpessoais, na co-participação das situações dos informantes, analisadas a partir da significação que estes dão aos seus atos, sendo que o pesquisador participa, compreende e interpreta (CHIZZOTTI, 1998).

Salientamos, então, o caráter qualitativo predominante da pesquisa.  Chizzotti (1998) completa, ainda, que algumas pesquisas qualitativas não descartam a coleta de dados quantitativos, principalmente na etapa exploratória de campo ou nas etapas em que estes dados podem mostrar uma relação mais extensa entre fenômenos particulares, o que vai ao encontro da presente pesquisa.

3.2 Participantes do estudo

A pesquisa de campo ocorreu em escolas públicas municipais de ensino fundamental de Caxias do Sul – RS, as quais possuem alunos com deficiência física incluídos em classes comuns, sendo participantes da pesquisa as próprias escolas e os professores dos referidos alunos.

Para uma maior fidedignidade científica, tivemos, como delimitação do estudo, a realização da pesquisa em a) escolas municipais, com b) professores regentes de turmas de séries iniciais, e que tinham c) alunos com deficiência física e locomoção por cadeiras de rodas (cadeirantes), d) sem déficit cognitivo.

A intenção desta delimitação foi conhecer mais profundamente a realidade pesquisada (escolas municipais e professores regentes de séries iniciais) e ter a maior apreensão possível das variáveis estudadas (barreiras arquitetônicas e barreiras atitudinais), sem interferências. Quanto às barreiras arquitetônicas em relação à deficiência física, imaginamos que a existência ou não das mesmas exercerá um maior impacto sobre os alunos que tiverem maiores dificuldades de mobilidade, no caso, alunos que se locomoverem em cadeiras de rodas. Da mesma forma, as barreiras atitudinais poderiam sofrer influência em relação a outras deficiências associadas à deficiência física, ou ao grau da deficiência física.

A fim de verificar as possibilidades para a realização do trabalho proposto na rede municipal, realizamos um contato com a Secretaria Municipal de Educação (SMED) de Caxias do Sul, RS, por meio de uma visita, previamente agendada. Nesta, houve a explanação do projeto (seus objetivos e metodologia) à responsável do Departamento de Educação Especial da SMED.

Seguindo os procedimentos burocráticos, apontados pela SMED, o requerimento referente à pesquisa foi protocolado na Prefeitura Municipal, via processo administrativo (no 2006/5275-0), em fevereiro de 2006 (Anexo A).

Após a análise do documento, realizada pela Assessoria de Educação Especial da SMED, a solicitação foi deferida segundo “Comunicação de Despacho no 2006/5275-9”, de 22 de março de 2006 (Anexo B), bem como foram determinadas, pelo mesmo documento, as escolas a serem pesquisadas, de acordo com os critérios de inclusão já expostos.

Pelo documento acima, foram apontadas sete escolas a serem pesquisadas, com as respectivas situações clínicas que caracterizavam a deficiência física dos alunos incluídos. O número de escolas foi determinado de acordo com a presença de aluno(s) com alguma deficiência física, matriculados e incluídos em classe comum.

A partir disto, realizamos contato telefônico com estas escolas para certificar­nos se estas se caracterizavam de acordo com a delimitação da pesquisa15. Assim, das sete escolas apontadas, duas foram excluídas da pesquisa: uma delas devido à desistência da aluna16 e a outra em decorrência do aluno incluído possuir deficiência física associada à deficiência mental.

Desta forma, foram participantes da pesquisa cinco escolas e cinco professores, sendo que uma dessas professoras possuía duas alunas incluídas, como observamos no quadro seguinte:

15 Inclusão de alunos com deficiência física e locomoção por cadeiras de rodas (cadeirantes), sem
déficit cognitivo, em séries iniciais. 16 Segundo informação da direção, a aluna não estava presenciando as aulas porque não tinha mais
condições de saúde, em virtude do progresso de uma doença degenerativa.


Quadro 1 – Participantes da pesquisa

Os alunos com deficiência física, utilitários de cadeira de rodas, incluídos em escolas comuns e em séries iniciais foram, ao todo, seis, sendo três do sexo masculino e seis do sexo feminino. Em relação à causa da deficiência física, dois alunos possuem, como causa, Distrofia de Duchenne, três possuem Paralisia Cerebral, e uma aluna possui histórico de atraso no desenvolvimento neuropsicomotor, mas não apresenta um diagnóstico definido. Podemos visualizar, no quadro que segue:


Quadro 2 – Alunos relacionados à pesquisa

3.3 Instrumentos para coleta de dados

Para que a pesquisa tenha certo grau de validade científica, os estudos descritivos exigem do investigador, de acordo com Triviños (1987, p. 112), “uma precisa delimitação de técnicas, métodos, modelos e teorias que orientarão a coleta e interpretação de dados”.

Dessa forma, nesta pesquisa utilizamos, como instrumentos para a coleta de dados, uma 1) Entrevista Semi-estruturada, realizada com os professores participantes da pesquisa, bem como  2) Observação Sistemática, realizada nas escolas pesquisadas e 3) Diário de Campo, com relato do pesquisador em relação às visitas.

Entrevista Semi-Estruturada

De acordo com Lakatos e Marconi (2001), a entrevista trata-se de uma conversação de natureza profissional, efetuada face a face através do encontro entre duas pessoas, a fim de que uma delas obtenha informações a respeito de determinado assunto, de maneira metódica (LAKATOS e MARCONI, 2001). A entrevista semi-estruturada, por sua vez, parte de certos questionamentos básicos, apoiados em teorias e hipóteses que interessam à pesquisa, e que, em seguida, oferecem amplo campo de interrogativas, fruto de novas hipóteses, as quais vão surgindo à medida em que se recebem as respostas do informante (TRIVIÑOS, 1987).

Na presente pesquisa, então, a realização da Entrevista Semi-estruturada com os professores participantes foi o instrumento utilizado para identificar a existência de barreiras atitudinais (e, se presentes, quais seriam), em relação aos alunos com deficiência física incluídos – mais precisamente em relação ao corpo deles – representadas por sentimentos, percepções e concepções, relatadas de acordo com o roteiro de perguntas previamente estabelecido (Apêndice A).

A entrevista possuiu um roteiro com quatro questões, sendo duas delas com sub-questões, além de outras questões surgidas ocasionalmente. Optamos por elaborar um número reduzido de perguntas, para que as mesmas proporcionassem ao entrevistado discorrer livremente em suas respostas. O embasamento para a estruturação das perguntas se deu através do referencial teórico estudado, sendo que o próprio ordenamento das perguntas pré-estabelecidas foi relacionado aos tópicos abordados no corpus teórico.

Observação Sistemática

Para a verificação da existência (ou não) de barreiras arquitetônicas nas escolas pesquisadas, utilizamos o instrumento Observação Sistemática, também denominado observação estruturada ou padronizada (GIL, 1991; CHIZZOTTI, 1998; TRIVIÑOS, 1987), sendo que esta consiste na coleta e registro de eventos observados, que foram previamente definidos (CHIZZOTTI, 1998, p. 53) quando se deseja colocar, em relevo, traços específicos do fenômeno que se estuda (TRIVIÑOS, 1987).

Foram realizadas observações sistemáticas das escolas participantes da pesquisa, com foco no espaço físico das mesmas. Os itens para observação, previamente definidos, foram baseados na NBR 9050 (ABNT, 2004) e apontados de acordo com sua relevância para a autonomia de alunos com deficiência física no ambiente escolar (Apêndice B). Os dados obtidos com as referidas observações foram registrados em planilha e também através de fotografias.

Diário de Campo

O instrumento Diário de Campo constou de observações não sistemáticas realizadas pelo pesquisador, a cada visita às escolas participantes da pesquisa. Estas tiveram o objetivo de enriquecer o material de pesquisa coletado com os instrumentos supracitados, já que o seu caráter informal possibilita a captura de fatos ocasionais, bem como falas não registradas nas gravações.

Através do Diário de Campo, realizamos também o registro das conversas informais tidas com os alunos e diretoras, mesmo que estes não tenham sido diretamente participantes da pesquisa.

3.4 Procedimentos metodológicos

A fim de manter o anonimato das escolas e das professoras17, estas serão denominadas da seguinte forma: as escolas segundo o nome de países, os quais

17 Como as participantes eram todas do sexo feminino, daqui por diante utilizará o termo “professoras”.

corresponderão às primeiras cinco letras do alfabeto brasileiro; para caracterização das respectivas professoras, serão utilizadas as letras (A,B,C,D e E), bem como para os alunos (por exemplo, escola Argentina, professora A, aluno A), sendo que, para a escola “Equador”, tem-se os alunos “E1” e “E2”.

As professoras participantes da pesquisa foram contatados, a fim de solicitar sua participação na pesquisa, mediante a apresentação de um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido18 (Anexo C). Para a participação da escola na pesquisa, houve, da mesma forma, a explanação de um Termo de Consentimento Institucional à Direção de cada escola (Anexo D).

A obtenção dos dados com os instrumentos já referidos (entrevista, observação e diário de campo) foi realizada simultaneamente em cada escola, sendo que o agendamento das visitas para a coleta dos dados foi realizado mediante: – disponibilidade da professora para responder à entrevista; – presença do aluno na escola; – possibilidade de registro fotográfico no ambiente escolar, incluindo a área externa (boa luminosidade e ausência de chuvas).

As entrevistas foram realizadas em salas de aula, estando presentes apenas

o entrevistado e o entrevistador. Estas foram gravadas em fita cassete, utilizando-se um gravador-reprodutor “Sony TCM-150 Cassette Recorder”. Posteriormente, as entrevistas foram transcritas pelo pesquisador.

As observações sistemáticas do espaço físico escolar foram registradas em planilha e em máquina fotográfica digital “Canon Power Shot A 400”.

O diário de campo foi realizado após cada visita, em ambiente próprio do pesquisador.

Algumas fontes documentais, como as pastas com informações pessoais, foram consultadas eventualmente a fim de se ter uma melhor apreensão da realidade dos alunos quando as informações fornecidas eram incompletas ou confusas.

Para uma maior compreensão da análise e discussão dos dados referentes às escolas, achamos importante uma breve descrição do corpo docente, discente e

18 Elaborado com base na resolução 196/1996 do Conselho Nacional de Saúde, do Ministério da Saúde, publicada no Diário Oficial número 201, 16/ 96.

funcionários, bem como de sua infra-estrutura, apresentados nos Quadros que seguem:


Quadro 3 – Quadro docente, discente e funcionários das escolas:


Quadro 4 – Data de criação e estrutura das escolas

DEIXE UMA RESPOSTA

Comentar!
Digite seu nome!